6 November , 2009   02:33
Bilhete



Mario Quintana

Se tu me amas,
ama-me baixinho.

Não o grites de cima dos telhados,
deixa em paz os passarinhos.

Deixa em paz a mim!

Se me queres,
enfim,

tem de ser bem devagarinho,
amada,

que a vida é breve,
e o amor
mais breve ainda.



22 August , 2009   22:57
Life is but a Dream



Lewis Carroll

A boat, beneath a sunny sky
Lingering onward dreamily
In an evening of July

Children three that nestle near,
Eager eye and willing ear,
Pleased a simple tale to hear

Long has paled that sunny sky;
Echoes fade and memories die;
Autumn frosts have slain July.

Still she haunts me, phantomwise,
Alice moving under skies
Never seen by waking eyes.

Children yet, the tale to hear,
Eager eye and willing ear,
Lovingly shall nestle near.

In a Wonderland they lie,
Dreaming as the days go by,
Dreaming as the summers die;

Ever drifting down the stream
Lingering in the golden gleam
Life, what is it but a dream?



1 March , 2008   04:46
Teoria da sociabilidade do louco


O difícil de ser louco é que a gente nunca é louco junto, a gente só é louco só, porque se a gente fosse louco junto, ia parecer normal. Se a gente, quando na loucura, vê o que ninguém vê, fica diferente. Se a gente, quando na loucura, vê o que os outros loucos vêem, a gente fica normal. Mas se um louco acha que é um, ele vai achar que os outros são os outros. Mas pode acontecer de os outros loucos também acharem que são aquele um, então é ruim ser louco junto, porque todo mundo vai achar que é a mesma coisa. Eis o problema: o louco percebe o diferente, o que os outros não percebem. Então ele acha que é diferente. Mas os outros loucos também se acham diferentes; não diferentes diferentes, mas diferentes iguais, entendeu? Loucos podem perceber a diferença como um espaço singular, que só um pode ocupar. Um louco que é o que ninguém mais é deve estar ao lado de outro louco que é o que ninguém mais é, nem aquele outro louco. Ele vê o que ninguém mais vê (nem mesmo o outro louco) mas isso é normal, pois o segundo louco também vê coisas que ninguém mais vê, nem mesmo o primeiro louco. Se a gente vê, ouve, cheira, degusta, sente, ou pensa o que os outros não conseguem, não tem problema, porque com os outros acontece o mesmo, e ninguém ia achar estranho. Mas aí entra a regra da confiança: todos iam ter de confiar nos outros e ser… honestos. O que a honestidade tem a ver com loucura e sanidade? Talvez bem pouco, mas honestidade tem a ver com a vontade de verdade, e o louco não mente quando diz que vê uma coisa que ninguém mais vê. Se ele diz que vê, é porque ele vê. Com um  indivíduo são acontece o mesmo, sendo que se a gente é são, faz mais acordos pra chegar a uma conclusão sobre o que é verdadeiro ou falso. O louco talvez seja mais intransigente, por isso já aconteceu muita briga entre loucos e os sãos. Então o louco só (sozinho) é o mais seguro, podem pensar os sãos. Quando a gente é louco só, a gente é diferente, mas louco. Quando a gente é louco junto, a gente é normal, mas igual. Pra ser louco junto dá muito trabalho. E quando a gente é louco junto? Nunca, eu acho. Isso é impedido de acontecer. À gente só é permitido ser louco só. E só.


24 February , 2008   23:07
Verlaine


O luar grisallho brilha no bosque;
De cada galho parte uma voz que roça a ramada
Ó bem amada.
reflete o lago, espelho puro,
O vulto vago do choupa escuro que ao vento chora…
Sonhemos: é hora. Um grande e brando quebrantamento
Vem, vem baixando do firmamento que o astro ilumina
É a hora divina.

(Verlaine)



8 February , 2008   01:18
Você é feia


Você é feia

César Bandin Ron

É a verdade
eu não tenho culpa
ridículo fora dissimulá-lo
se até parece um macaco você
tem corpo de homem
caminha como um homem
ridículo fora dissimulá-lo
e sempre fica séria
como se estivesse irritada

Você é feia mais que demais
você é feia sim

Mas há algo em você
eu não saberia dizer que coisa
algo tão exarcebadamente feminino
tão dramaticamente feminino
que a mim me deixa louco
você é feia sim
mas eu gosto muito de você
você é feinha sabe
mas a mim me deixa louco você.



6 February , 2008   02:05
Poema cabeludo


0141 - Poema da b***** cabeluda (Bráulio Tavares)

Poema cabeludo. Mas lembrei desse poema no carnaval… Sabe. Lembrei.



10 January , 2008   16:25
Vestibular


Paulo Roberto Parreiras
desapareceu de casa.
Trajava calças cinzas e camisa branca
e tinha dezesseis anos.
Parecia com teu filho, teu irmão,
teu sobrinho, parecia
com o filho do vizinho
mas não era. Era Paulo
Roberto Parreiras
que não passou no vestibular.

Recebeu a notícia quinta-feira à tarde,
ficou triste
e sumiu.
De vergonha? de raiva?
Paulo Roberto estudou
dura duramente
durante os últimos meses.
Deixou de lado os discos,
o cinema,
até a namoradinha ficou dias sem vê-lo.
Nem soube do carnaval.
Se ele fez bem ou mal
não sei: queria
passar no vestibular.
Não passou. Não basta
estudar?

Paulo Roberto Parreiras
a quem nunca vi mais gordo,
onde quer que você esteja
fique certo
de que estamos de seu lado.
Sei que isso é muito pouco
para quem estudou tanto
 e não foi classificado (pois não há
excedentes), mas
é o que lhe posso oferecer: minha palavra
de amigo
desconhecido.
Nesta mesma quinta-feira
em Nova York morreu
um menino de treze anos que tomava
entorpecentes.
Em S. Paulo, outro garoto
foi preso roubando um carro.
E há muitos outros que somem
ou surgem como cometas ardendo em sangue,
nestas noites,
nestas tardes,
nestes dias amargos.

Não sei onde você foi
nem sei o que pretende fazer
nem posso dizer que volte
para casa,
estude (mais?) e tente outra vez.
Não tenho nenhum poder,
nada posso dizer-lhe
é que a gente não foge
da vida,
é que não adianta fugir.
Nem adianta endoidar.
Tudo o que posso dizer-lhe
é que você tem direito de estudar.
É justa a sua revolta:
seu outro vestibular.

Ferreira Gullar 

—————-
Now playing: oasis - stop crying your heart out
via FoxyTunes   



3 April , 2007   02:27
Bom Conselho


Ouça um bom conselho

Eu lhe dou de graça

Inútil dormir que a dor não passa

Espere sentado

Ou você se cansa

Está provado, quem espera nunca alcança

Venha, meu amigo

Deixe esse regaço

Brinque com meu fogo

Venha se queimar

Faça como eu digo

Faça como eu faço

Aja duas vezes antes de pensar

Corro atrás do tempo

Vim de não sei onde

Devagar é que não se vai longe

Eu semeio vento na minha cidade

Vou pra rua e bebo tempestade…

(Chico Buarque. In: A arte de Chico Buarque) 



17 March , 2007   17:22
Bolhas


Bem, vou postar um poema hoje. Dedicado a todas as (e todos os) bolhas:

 

Olha a bolha d’água

no galho!

Olha o orvalho!

 

Olha a bolha de vinho

Na rolha!

Olha a bolha!

 

Olha a bolha na mão

que trabalha!

 

Olha a bolha de sabão

na ponta da palha:

brilha, espelha

e se espalha.

Olha a bolha!

 

Olha a bolha

que molha

a mão do menino.

 

A bolha da chuva da calha!

 

(MEIRELES, Cecília, Ou isto ou aquilo, 3 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978, p.67.) 



6 March , 2007   03:52
Poema para o dia 8 de março


Esse poema é do início do século XX, tempo em que as mulheres eram fúteis e superficiais. Ainda bem que os tempos mudaram e todas as mulheres evoluíram.

Eu queria ser mulher

Eu queria ser mulher para poder me estender ao lado dos meus amigos, nos cafés.

Eu queria ser mulher para poder passar pó de arroz pelo meu rosto diante de todos, nos cafés.

Eu queria ser mulher para não ter que pensar na vida… Conhecer muitos velhos, a quem eu pedisse dinheiro.

Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro falando de modas, fazendo fofocas, muito entretida.

Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios, aguçá-los ao espelho antes de me deitar. Eu queria ser mulher para que me fosse bem todos esses ílios. Esses ílios que no homem, francamente não se pode desculpar.

Eu queria ser mulher para ter muitos amantes, e enganá-los, a todos, mesmo ao predileto.

Como eu gostaria de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto, o mais bonito. Enganá-lo com um rapaz gordo, feio e de modos extravagantes.

Eu queria ser mulher para excitar quem me olha.

Eu queria ser mulher para poder me recusar.

 

Mário de Sá-Carneiro