Mario Quintana Se tu me amas, Não o grites de cima dos telhados, Deixa em paz a mim! Se me queres, tem de ser bem devagarinho, que a vida é breve,
ama-me baixinho.
deixa em paz os passarinhos.
enfim,
amada,
e o amor
mais breve ainda.
Lewis Carroll A boat, beneath a sunny sky Children three that nestle near, Long has paled that sunny sky; Still she haunts me, phantomwise, Children yet, the tale to hear, In a Wonderland they lie, Ever drifting down the stream
Lingering onward dreamily
In an evening of July
Eager eye and willing ear,
Pleased a simple tale to hear
Echoes fade and memories die;
Autumn frosts have slain July.
Alice moving under skies
Never seen by waking eyes.
Eager eye and willing ear,
Lovingly shall nestle near.
Dreaming as the days go by,
Dreaming as the summers die;
Lingering in the golden gleam
Life, what is it but a dream?
O luar grisallho brilha no bosque;
De cada galho parte uma voz que roça a ramada
Ó bem amada.
reflete o lago, espelho puro,
O vulto vago do choupa escuro que ao vento chora…
Sonhemos: é hora. Um grande e brando quebrantamento
Vem, vem baixando do firmamento que o astro ilumina
É a hora divina.
(Verlaine)
Você é feia
César Bandin Ron
É a verdade
eu não tenho culpa
ridículo fora dissimulá-lo
se até parece um macaco você
tem corpo de homem
caminha como um homem
ridículo fora dissimulá-lo
e sempre fica séria
como se estivesse irritada
Você é feia mais que demais
você é feia sim
Mas há algo em você
eu não saberia dizer que coisa
algo tão exarcebadamente feminino
tão dramaticamente feminino
que a mim me deixa louco
você é feia sim
mas eu gosto muito de você
você é feinha sabe
mas a mim me deixa louco você.
0141 - Poema da b***** cabeluda (Bráulio Tavares)
Poema cabeludo. Mas lembrei desse poema no carnaval… Sabe. Lembrei.
Paulo Roberto Parreiras
desapareceu de casa.
Trajava calças cinzas e camisa branca
e tinha dezesseis anos.
Parecia com teu filho, teu irmão,
teu sobrinho, parecia
com o filho do vizinho
mas não era. Era Paulo
Roberto Parreiras
que não passou no vestibular.
Recebeu a notícia quinta-feira à tarde,
ficou triste
e sumiu.
De vergonha? de raiva?
Paulo Roberto estudou
dura duramente
durante os últimos meses.
Deixou de lado os discos,
o cinema,
até a namoradinha ficou dias sem vê-lo.
Nem soube do carnaval.
Se ele fez bem ou mal
não sei: queria
passar no vestibular.
Não passou. Não basta
estudar?
Paulo Roberto Parreiras
a quem nunca vi mais gordo,
onde quer que você esteja
fique certo
de que estamos de seu lado.
Sei que isso é muito pouco
para quem estudou tanto
e não foi classificado (pois não há
excedentes), mas
é o que lhe posso oferecer: minha palavra
de amigo
desconhecido.
Nesta mesma quinta-feira
em Nova York morreu
um menino de treze anos que tomava
entorpecentes.
Em S. Paulo, outro garoto
foi preso roubando um carro.
E há muitos outros que somem
ou surgem como cometas ardendo em sangue,
nestas noites,
nestas tardes,
nestes dias amargos.
Não sei onde você foi
nem sei o que pretende fazer
nem posso dizer que volte
para casa,
estude (mais?) e tente outra vez.
Não tenho nenhum poder,
nada posso dizer-lhe
é que a gente não foge
da vida,
é que não adianta fugir.
Nem adianta endoidar.
Tudo o que posso dizer-lhe
é que você tem direito de estudar.
É justa a sua revolta:
seu outro vestibular.
Ferreira Gullar
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Now playing: oasis - stop crying your heart out
via FoxyTunes
Ouça um bom conselho
Eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança
Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar
Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio vento na minha cidade
Vou pra rua e bebo tempestade…
(Chico Buarque. In: A arte de Chico Buarque)
Bem, vou postar um poema hoje. Dedicado a todas as (e todos os) bolhas:
Olha a bolha d’água
no galho!
Olha o orvalho!
Olha a bolha de vinho
Na rolha!
Olha a bolha!
Olha a bolha na mão
que trabalha!
Olha a bolha de sabão
na ponta da palha:
brilha, espelha
e se espalha.
Olha a bolha!
Olha a bolha
que molha
a mão do menino.
A bolha da chuva da calha!
(MEIRELES, Cecília, Ou isto ou aquilo, 3 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978, p.67.)
Esse poema é do início do século XX, tempo em que as mulheres eram fúteis e superficiais. Ainda bem que os tempos mudaram e todas as mulheres evoluíram.
Eu queria ser mulher
Eu queria ser mulher para poder me estender ao lado dos meus amigos, nos cafés.
Eu queria ser mulher para poder passar pó de arroz pelo meu rosto diante de todos, nos cafés.
Eu queria ser mulher para não ter que pensar na vida… Conhecer muitos velhos, a quem eu pedisse dinheiro.
Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro falando de modas, fazendo fofocas, muito entretida.
Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios, aguçá-los ao espelho antes de me deitar. Eu queria ser mulher para que me fosse bem todos esses ílios. Esses ílios que no homem, francamente não se pode desculpar.
Eu queria ser mulher para ter muitos amantes, e enganá-los, a todos, mesmo ao predileto.
Como eu gostaria de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto, o mais bonito. Enganá-lo com um rapaz gordo, feio e de modos extravagantes.
Eu queria ser mulher para excitar quem me olha.
Eu queria ser mulher para poder me recusar.
Mário de Sá-Carneiro
