Mario Quintana Se tu me amas, Não o grites de cima dos telhados, Deixa em paz a mim! Se me queres, tem de ser bem devagarinho, que a vida é breve,
ama-me baixinho.
deixa em paz os passarinhos.
enfim,
amada,
e o amor
mais breve ainda.
Lewis Carroll A boat, beneath a sunny sky Children three that nestle near, Long has paled that sunny sky; Still she haunts me, phantomwise, Children yet, the tale to hear, In a Wonderland they lie, Ever drifting down the stream
Lingering onward dreamily
In an evening of July
Eager eye and willing ear,
Pleased a simple tale to hear
Echoes fade and memories die;
Autumn frosts have slain July.
Alice moving under skies
Never seen by waking eyes.
Eager eye and willing ear,
Lovingly shall nestle near.
Dreaming as the days go by,
Dreaming as the summers die;
Lingering in the golden gleam
Life, what is it but a dream?
W. não havia tido um bom dia. Era verão. Ao pegar o ônibus lotado, nenhum lugar vago. Ficou espremido entre um gordao e um fedorento. No caminho, o trânsito lento. Uma senhora decapitada pelos pneus de uma carreta; a pressa que lhe custou a vida e o horário de milhares de trabalhadores.
Tendo chegado atrasado, o chefe lhe disse para começar logo o serviço de transporte de cargas em uma alimentadora. Os colegas riam de tudo. De sua barriga, de sua careca, do seu andar manco. Decidiu que ia jogar a empilhadeira por cima de alguém, mas não tinha coragem. Pensava na esposa e nos filhos pequenos.
Foi quando um supervisor o viu e considerou que fazia trabalho mole. W. foi tomado pelo temor, quando ouviu a ameaça de demissão. Mas logo depois o ódio substituiu o medo: “quem era aquele engomadinho pensa que é?” Mas não tinha coragem para falar coisa alguma. Pensava no salário pouco e nas contas do mês.
Na volta, outro ônibus lotado. Nenhum lugar nem para respirar outra coisa que não o hálito e o suor alheio. O motorista freava e acelerava como se carregasse sacos de arroz, W. pensava. Isso teria de mudar. Mas como arrumar coragem?
Até que um dia, resolveu falar com o dono da boca perto de sua casa. W. explicou que precisava acertar contas e indagou quanto custaria uma arma. Fora encaminhado pelo traficante a outro homem que vendia armas. Este lhe vendeu um revólver enferrujado que garantia ser perfeito para atirar de perto.
W. foi ao ponto de ônibus com a arma na mochila dentro da qual também carregava a marmita. Não temia que o sacolejar do ônibus fizesse disparar uma bala. Não temia coisa alguma. E discutiu com uma senhora negra que se sentiu bolinada por ele. “Não tem espaço pra passar!”, argumentou. Ela esbravejava e ele passava berrando sobre a relação negros e sujeira, entre outros racismos.
No trabalho não temeu o chefe. Não temeu o supervisor. Não temeu os colegas. Todos poderiam morrer se W. quisesse. Mas ele tinha o poder de mantê-los vivos não sacando o revólver e isso o fazia feliz.
Na volta pra casa, o tempo virou. Uma grande chuva ameaçava cair. No ônibus, uma surpresa: um lugar vago. W. sentou-se ao lado de um homem corpulento e sacudo. pois suas pernas ocupavam quase os dois acentos. W. tentou se acomodar no cantinho que restara e a fim de apreciar finalmente uma viagem sentado. À medida que o coletivo enchia, as coxas dos dois homens roçavam cada vez mais, o que irritou o homem corpulento, que, por ser muito homem, exigiu que W. ficasse “mais para lá”.
Mas isso era impossível! Os dois discutiram, W. falou da gordura do homem, muito maior que ele. Discutiam alto, mas nem todos os passageiro ouviam. O trânsito não parava, buzinhas, freadas e o barulho do horário de pico faziam daquela discussão apenas mais uma fonte de barulho. O motorista, como sempre, fazia ultrapassagens perigosas, acelerava no sinal amarelo, freava sem se importar com que batesse a cabeça e morresse.
Num ato talvez impensado, certamente impensado, o motorista desviou-se de uma velhinha que tentou atravessar a rua. O ônibus invadiu a calçada contrária e bateu em um poste e em um prédio. Dentre os feridos, o homem corpulento. Dentre os praticamente ilesos W.. Com o coletivo virado de lado e vazando algum tipo de fumaça, W. sentiu-se gravemente interrompido, porque na discussão que estava tendo, era a sua vez de xingar e revidar. Mas não pôde, por causa dessa imperícia do condutor.
Com muito despeito e remorso, W. saca da arma e mata o homem corpulento com dois tiros. Também atira contra o motorista lá a frente. Não viu se acertou. Não viu se tinha razão. Após os tiros e os gritos de desespero, uma chuva fina, um pôr-do-sol sem igual. E W. e seus companheiros de viagens foram testemunhas de uma grande explosão.
No post anterior falei da Índia e tal, e quase que cometi uma gafe. Ia falar de um livro que li há muito tempo, porque abordava a questão dos imigrantes em um bairro indiano em Londres… Ãhn…. Mas não eram indianos, eram pasquitaneses! Em tempo eu lembrei. Confundir Índia com Paquistão não é sensanto. Bom, se eu evitei o erro, então por que falar dele aqui?
O livro do qual falei é Os mortos estão vendo (The dead are listening), de Francis McCrickard. Literatura juvenil da melhor qualidade. Acho até que está fora de catálogo, infelizmente . Quando relembrei me deu uma nostalgina da pré-adolescência. Até hoje recordo bem da ocasião em que eu peguei o livro. Era uma aula de português da sétima série, todos os alunos tínhamos de escolher um livro para ler e fazer um resumo para entregar em um prazo de… digamos… um mês. Estavam todos em uma mesa. Peguei o livro de McCrickard e um colega me disse em tom de deboche: “que azar, pegou o livro mais grosso”.
Seria mais fácil pegar um daqueles livrinhos finos e cheios de figuras para ler e resumir, sim. Mas talvez não fosse tão divertido. Esses colegas que não gostam de ler muito eu nem sei onde estão hoje, nem o que estão fazendo. Mas tenho a leve impressão de que estou melhor do que eles.
Capítulo 72 Post relacionado| O senão do blog
O bibliônamo
Talvez suprima o capítulo anterior; entre outros motivos, há aí um despropósito, e eu não quero dar pasto à crítica do futuro.
Olhai: daqui a setenta anos, um sujeito magro, amarelo, grisalho, que não ama nenhuma outra coisa além dos livros, inclina-se sobre a página anterior, a ver se lhe descobre o despropósito; lê, relê, treslê, desengonça as palavras, saca uma sílaba, depois outra, mais outra, e as restantes, examina-as por dentro e por fora, por todos os lados, contra a luz, espaneja-as, esfrega-as no joelho, lava-as, e nada; não acha o desprpósito.
É um bibliônamo. Não conhece o autor; este nome Brás Cubas não vem nos seus dicionários biográficos. Achou o volume por acaso, no pardieiro de um alfarrabista. Comprou-o por duzentos réis. Indagou, pesquisou, esgaravatou, e veio a descobrir que era um exemplar único… Único! Vós, que não só amais os livros, senão que padeceis a mania deles, vós sabeis mui bem o valor desta palavra, e adivinhais, portanto, as delícias de meu bibliônamo. Ele rejeitaria a coroa das Índias, o papado, todos os museus da Itália e da Holanda, se os houvesse de trocar por esse único exemplar; e não porque seja o das minhas Memórias, faria a mesma coisa com o Almanaque de Laemmert, uma vez que fosse único.
O pior é o despropósito. Lá continua o homem inclinado sobre a página, com uma lente no olho direito, todo entregue à nobre e áspera tarefa de decifrar o despropósito. Já promteu a si mesmo escrever uma breve memória, na qual relate o achado do livro e a descoberta da sublimidade, se a houver por baixo daquela frase obscura. Ao cabo, não descobre nada e contenta-se com a posse. Fecha o livro, mira-o, remira-o, chega-se à janela e mostra ao sol. Um exemplar único! Nesse momento passa-lhe por baixo da janela um César ou um Cromwell, a caminho do poder. Ele dá de ombros, fecha a janela, estira-se na rede e folheia o livro devagar, com amor, aos goles… um exemplar único!
Capítulo 71
O senão do livro
Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…
E caem! - Folhas misérrimas do meu cipestre, heis de cair, como quaisquer outras belas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-ia uma lágrima de saudade. Está é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar… Heis de cair.
Mahado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas.
O luar grisallho brilha no bosque;
De cada galho parte uma voz que roça a ramada
Ó bem amada.
reflete o lago, espelho puro,
O vulto vago do choupa escuro que ao vento chora…
Sonhemos: é hora. Um grande e brando quebrantamento
Vem, vem baixando do firmamento que o astro ilumina
É a hora divina.
(Verlaine)
Você é feia
César Bandin Ron
É a verdade
eu não tenho culpa
ridículo fora dissimulá-lo
se até parece um macaco você
tem corpo de homem
caminha como um homem
ridículo fora dissimulá-lo
e sempre fica séria
como se estivesse irritada
Você é feia mais que demais
você é feia sim
Mas há algo em você
eu não saberia dizer que coisa
algo tão exarcebadamente feminino
tão dramaticamente feminino
que a mim me deixa louco
você é feia sim
mas eu gosto muito de você
você é feinha sabe
mas a mim me deixa louco você.
0141 - Poema da b***** cabeluda (Bráulio Tavares)
Poema cabeludo. Mas lembrei desse poema no carnaval… Sabe. Lembrei.
