18 January , 2009   23:00
Já entendi a mensagem, dona Record


Por um desses acasos do destino fiquei com a tevê ligada na Record. E tevê é aquela coisa: mesmo que você não esteja assistindo, acaba recebendo conteúdo por osmose. Aliás, uma osmose reversa, porque sai do meio mais concentrado para o meio menos concentrado (os vestibulandos devem se lembrar disso).

Em certo momento passou uma matéria sobre um novo seriado da Record, A Lei e a Ordem. A história se passa no fictício morro da Alvorada (existe uma cidade gaúcha com essa nome, achei um baita preconceito!), onde a criminalidade é grande e coisa e tal. O making of mostrava todo o trabalho pra montar câmeras e afins. As cenas externas são em uma comunidade do Rio de Janeiro (terra da Globo, por sinal).

O trabalho de jornalismo/marketing/corporativismo ficou bem interessante. Óbvio que a matéria da Record vai falar bem do seriado da Record. O mote é que o enredo não mostra mocinhos e bandidos de maneira tão maniqueista e por isso é melhor. O protagonista parece ser um traficante que antes tentou carreira no exército mas não conseguiu. Então o caminho do crime foi "a única saída" para ele sobreviver. Daí que decorre o não-maniqueismo: o personagem foi forçado pelas cicunstâncias a seguir o crime. Ele não é tão vilão, talvez ele seja também vítima.

Foi o que tentou ser feito em A Favorita, mas a técnica de confundir propositalmente mocinhos e vilões não durou nem meia novela. Isso dá certo em histórias que envolvam questões sociais como o tráfico de drogas e pobreza; não com sentimentos como o amor doentio. Isso pelo menos no que diz respeito a narrativas para o público massivo brasileiro.

Investimento pesado em super produções, na compra dos direitos de transmissão da Olímpiada de Londres, na contratação de astros da principal concorrente e em direitos de formatos estrangeiros; tudo isso mostra o que o senhor Senor Abravanel nunca teve a competência de fazer direito.

Tá, onde eu quero chegar com isso? Acontece que nos últimos dias eu tenho percebido muitas mensagens da Record. É em outdoors, em rádio, e-mails, notícias… Ei, já entendi que eles estão rumo à liderança! Tá bom!? Já entendi a mensagem. Chega. O trabalho de comunicação chega a ser agressivo às vezes. Pelo menos eu acho.

Acredito que um dia a emissora da Igreja Universal vai assumir a liderança no Brasil, desbancando os "católicos" da Rede Globo. Uma vez eu ouvi uma mulher falar na tevê que os evangélicos querem dominar o país. Ela se referia ao fato de como as religiões afro-brasileiras eram mal vistas por grupos cristãos. Hmmm… isso vai dar rolo, eu sei, mas não fui eu quem falei isso, inclusive não tomo partido de ninguém. Ok, mais uma vez, onde eu quero chegar com isso? Esse avanço das doutrinas neo-penteconstais são legitimadas pela ética protestante do que a ética católica de humildade e não acumulação de riqueza. São pensamentos distintos e que pegam fragmentos da Bíblia para argumentar. Nesse mesh-up de versículos bíblicos está a retórica cristã atual e por isso que é possível ter dois pontos de vista tão diferentes.

É essa ética que faz a Record se sentir tão à vontade no seu plano ambicioso. Graças a essa ética que eu vejo mensagens deles a toda hora, dizendo "venha!". Daqui a pouco eu me convenço de que devo assistir mais televisão, mas não em qualquer canal. Já entendi a mensagem, agora vou pensar um pouquinho.


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