14 September , 2007   17:32
A destruição geral das coisas


"Por um lado dispomos, para começar, da consciência clara sob sua forma elaborada. O mundo da produção, a ordem das coisas, atingiu, por outro lado, o ponto de desenvolvimento em que não sabe o que fazer de seus produtos. A primeira condição torna possível a destruição, a segunda a torna necessária. Mas isso não pode ser feito no empíreo, dito de outro modo, na irrealidade, onde procede habitualmente a conduta religiosa. O momento da decisão, ao contrário, exige que se considere os aspectos mais pobres e os menos íntimos. É preciso agora descer ao mais baixo do mundo da redução do homem à coisa.

Posso me fechar no meu quarto, e procurar aí o sentido claro e distinto dos objetos que me cercam.

Eis minha mesa, minha cadeira, minha cama. Estão aí, como um efeito do trabalho. Para fazê-los e instalá-los em meu quarto foi preciso renunciar ao interesse do momento presente. De fato, eu mesmo tive que trabalhar para pagá-los, quer dizer que, teoricamente, tive que compensar com um trabalho de igual utilidade o trabalho dos operários que os fizeram ou os transportaram. Esses produtos do trabalho me permitem trabalhar e poderei pagar o trabalho do açougueiro, do padeiro e do camponês que garantirá minha subsistência e a continuação de meu próprio trabalho.

Agora coloco sobre minha mesa um grande copo de vinho.

Fui útil por ter comprado uma mesa, um copo, etc.

Mas esta mesa não é mais um meio de trabalho: ela me serve para beber.

Na medida em que coloco meu copo na mesa, eu a destruí, ou, pelo menos, destruí o trabalho que foi preciso para fazê-la.

Evidentemente que de início destruí  inteiramente o trabalho do vinicultor. Meu ato de beber, ao contrário, só destruiu infimamente o trabalho do carpinteiro. Pelo menos esta mesa, neste quarto, pesada de encadeamento com o trabalho, não teve por algum tempo outra finalidade que não o meu desencadeamento.

Vou agora me lembrar do uso que fiz do dinheiro ganho na minha mesa de trabalho.

Se esbanjei uma parte desse dinheiro, esbanjei uma parte do tempo; o resto me permitiu viver, mas a destruição da mesa já está mais avançada.

Tivesse eu por uma só vez agarrado o instante pelos cabelos, todo o tempo precedente já estaria sob o poder desse instante apreendido. E tods as subsistências, todas as ocupações que me permitiram chegar aí são imediatamente destruídas, se esvaziam infinitamente como um rio no oceano desse instante ínfimo.

Não há nesse mundo nenhum empreendimento, por maior que seja, que tenha outra finalidade que não a perda definitiva no instante fútil. Assim como o mundo das coisdas nada é no universo supérfluo onde ele se anula, do mesmo modo a massa dos esforços nada é perto da futilidade de um só instante. O instante é livre e, ao mesmo tempo, submisso, empenhado furtivamente em miúdas operações pelo medo de deixar se perder o tempo que justifica o valor pejorativo da palavra fútil.

Isso introduz como um fundamento da consciência clara de si a consideração dos objetos anulados e destruídos no instante íntimo. É o retorno à situação do animal que come outro, é a negação da diferença entre o objeto e eu mesmo, ou a destruição geral dos objetos enquanto tais no campo da consciência. Na medida em que a destruo no campo de minha consciência clara, esta mesa deixa de formar uma tela distinta e opaca entre o mundo e eu. Mas esta mesa não poderia ser destruída no campo da minha consciência se eu não desse à minha destruição suas conseqüências na ordem real. A redução real da redução da ordem real introduz na ordem econômica uma reversão fundamental. Trata-se, para preservar o movimento da economia, de determinar o ponto em que a produção excedente se escoará como um rio para fora. Trata-se de consumir - ou de destruir - infinitamente os objetos produzidos. Isso poderia ser feito igualmente sem a menor consciência. Mas é na medida em que a consciência clara triunfar que os objetos efetivamente destruídos não destruirão os próprios homens. A destruição do sujeito como indivíduo está, com efeito, implicada na destruição do objeto como tal, mas a guerra não é sua forma inevitável: não é, de qualquer maneira, sua forma consciente (pelo menos se a consciência de si deve ser, em sentido geral, humana)."

 

BATAILLE, Georges. Teoria da religião.  São Paulo : Ática, 1993. pp 77-79.