29 October , 2006   04:02
Ser um apanhador no Campo de Centeio


Botar título em alguma coisa é bem difícil. Pôr título em um livro então, é uma coisa horrivelmente complicada. É preciso ver do que o maldito livro está falando de verdade. É preciso saber qual é o tema do livro e aí nomeá-lo. Coisa fácil de se fazer é dar o nome do protagonista a um romance. J.D. Salinger fez mais ou menos isso. Só que Salinger não estava falando propriamente de uma pessoa, estava falando de uma vontade. Ele colocou um dos melhores títulos de livros que pode existir a partir de um diálogo sem sentido, assim como é todo adolescente.
Foi através de um simbolismo que essa vontade se apresentou. Quantos já não quiseram, de uma forma ou de outra, ser como Holden Caufield? O título "O apanhador no campo de centeio" surgiu disto. Holden estava conversando com sua irmã menor, Phoebe, sobre o que o tal do Holden queria ser quando crescer. Pois bem, a coisa foi mais ou menos assim:

- Você sabe o que eu quero ser quando crescer? - perguntei a ela. -Sabe o que eu queria ser? Se pudesse fazer a merda da escolha?
-O quê? Pára de dizer nome feio.
-Você conhece aquela cantiga: "Se alguém agarra alguém atravessando o campo de centeio"? Eu queria…
-A cantiga é "Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio"! - ela disse. - É de um poema do Robert Burns.
-Eu sei que é de um poema do Robert Burns.
Mas ela tinha razão. É mesmo "Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio". Mas eu não sabia direito.
-Pensei que era "Se alguém agarra alguém" - falei. - Seja lá como for, fico imaginando uma porçãode garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto - quer dizer, ninguém grande - a não ser eu. Eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.

SALINGER, J. D., O apanhador no campo de centeio. Editora do autor, 5ª ed., Rio de Janeiro. Título original: "The catcher in the rye". Tradução de Álvaro Alencar, Antônio Rocha, Jório Dauster


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